domingo, 21 de outubro de 2018

Biscoito & Bolacha

São raras as vezes em que nos emaranhamos com tanto vigor em discussões ricas como a que diz respeito à nomenclatura de um dos artigos culinários e de consumo mais presentes em nosso cotidiano: o Biscoito ou a Bolacha. O imbróglio não é recente e certamente remonta à teimosia dos bandeirantes vinda de encontro à resistência dos povos nativos e diaspóricos. O conflito contemporâneo, porém, não deixa pistas definitivas de quem é o colonizador, já que ambos os defensores de um e outro termo ambicionam impô-lo sem contestação aos demais. Se alguém tenta conciliar a questão sugerindo a complexidade das variações linguísticas e defendendo o respeito mútuo dos usos, mal se passam dois minutos e algum dos estandartes é erguido – Bolacha! – Não, Biscoito! E lá se vão duas horas, dois dias, duas vidas para o além sem que se tenha encontrado paz.
É certo que há quem participe de tais debates, hoje vivos em quase todo território nacional, com o frio objetivo de testemunhar o malabarismo retórico com que cada um defende seu lado ou, em outros casos, de meramente se divertir com a ridícula desproporção própria às rivalidades supérfluas. Estes, sabiamente (isto é, tendo em vista seu propósito), aguardam a restauração do silêncio para obstruí-lo novamente, como quando um carro lembra aos outros de que a buzina existe, em meio ao engarrafamento: “Biscoito!”, “Bolacha!”, e a orquestra retoma o pulso.
Apesar da aparente banalidade da controvérsia, a maioria não só mergulha num sofrimento mudo diante da polêmica insolúvel como também acaba perdendo muito por constatar um problema dessa magnitude reduzido a uma oposição binária exclusivista. Sei de pessoas que só passam a conversar com outras depois de checarem minuciosamente se estas são partidárias do nome que lhes convém. Caso contrário, dão a elas no máximo um bom dia acompanhado de um sorriso amarelo, evitam dividir o mesmo espaço, etc. Em circunstâncias mais extremas, chega-se à completa excomunhão social, sustentada numa figuração do outro como absolutamente abominável. Isso faz com que muita gente que nem dá tanta importância a essas distinções se veja obrigada a se posicionar antes mesmo de saber do que está falando, só para ganhar a confiança de quem almeja amizade.
Para solucionar o impasse há quem recorra aos clássicos. Cheguei a conhecer uma pessoa, que se dizia aristotélica, que defendia a seguinte fórmula, de acordo com a teoria das quatro causas:
- Bolacha é a forma, a causa formal. Já reparou que toda a bolacha é assim, ó, amassada? Dizia ele, fazendo um gesto de encontro vertical entre as palmas da mão. Já o Biscoito é a receita, a causa material, que não precisa sair achatado, como o biscoito de polvilho. O Biscoiteiro, demiurgo dessa maravilha, continuou enquanto retirava uma unidade do produto de seu pacote, é a causa eficiente… E, olhando para mim de um jeito artimanhoso, arrematou: finalmente, a causa final – e abocanhou de vez aquele objeto especulativamente indigesto.
Então se trataria de mais uma querela entre formalistas e materialistas? Pedi-lhe que me mostrasse a fonte de sua argumentação, ao que ele prontamente se dispôs, retirando a Metafísica da estante e me indicando o trecho em que o estagirita expõe sua tese. No entanto, notei que a causa formal – a quididade do ser –, para Aristóteles, não é apenas mais uma entre as quatro causas, sendo hierarquicamente superior às outras. Nisto, intuí o motivo de sua predileção pelo termo correspondente e fiquei frustrado. E com fome, não sei dizer de quê.

erupção

uma fenda quando aberta
deixa à mostra o que ao tato
nunca deixou de ser fato
mas que a visão encoberta

rasgam-se então os contratos
desde a cláusula mais pétrea
a termos que encenam tétricos
caprichos os mais abstratos

empertigam-se os profetas
- salve aos fortes morte aos fracos!
- nossa premissa é mais certa!

enquanto a lava arrebata
nossa condição deserta
sem medida correlata

Mariana-MG, outubro de 2017

Trechos da Fenomenologia do Espírito


“O botão desaparece da flor e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-aí da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas não só se distinguem, mas também se repelem como incompatíveis entre si. Porém, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade orgânica, na qual, longe de se contradizerem, todos são igualmente necessários. É essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo. Mas a contradição de um sistema filosófico não costuma conceber-se desse modo; além disso, a consciência que apreende essa contradição não sabe geralmente libertá-la – ou mantê-la livre – de sua unilateralidade; nem sabe reconhecer no que aparece sob a forma de luta e contradição contra si mesmo, momentos mutuamente necessários.”
(Prefácio da Fenomenologia do Espírito, Tradução Paulo Meneses, Petrópoles, RJ: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2012, p. 26)



“31 – [Das Bekannte] O bem-conhecido em geral, justamente por ser bem-conhecido, não é reconhecido. É o modo mais habitual de enganar-se e de enganar os outros: pressupor no conhecimento algo como já conhecido e deixá-lo tal como está. Um saber desses, com todo o vaivém de palavras, não sai do lugar – sem saber como isso lhe sucede. Sujeito e objeto etc.; Deus, natureza, o entendimento, a sensibilidade etc., são sem exame postos no fundamento, como algo bem conhecido e válido, constituindo pontos fixos tanto para a partida quanto para o retorno. O movimento se efetua entre eles, que ficam imóveis; vai e vem, só lhes tocando a superfície. Assim o apreender e o examinar consistem em verificar se cada um encontra em sua representação o que dele se diz, se isso assim lhe parece, se é bem-conhecido ou não.
32 – [Das Analysieren] Analisar uma representação, como ordinariamente se processava, não era outra coisa que suprassumir a forma de seu Ser-bem-conhecido. Decompor uma representação em seus elementos originários é retroceder a seus momentos que, pelo menos, não tenham a forma da representação já encontrada mas constituam a propriedade imediata do Si. De certo, essa análise só vem a dar em pensamentos, que por sua vez são determinações conhecidas, fixas e tranquilas. Mas é um ponto essencial esse separado, que é também inefetivo; uma vez que o concreto, só porque se divide e se faz inefetivo, é que se move. A atividade do dividir é a força e o trabalho do entendimento, a força maior e mais maravilhosa, ou melhor: a potência absoluta.
O círculo, que fechado em si repousa e retém como substância seus momentos, é a relação imediata e portanto nada maravilhosa. Mas o fato de que, separado de seu contorno, o acidental como tal – o que está vinculado, o que só é efetivo em sua conexão com outra coisa – ganhe um ser-aí próprio e uma liberdade à parte, eis aí a força portentosa do negativo: é a energia do pensar, do puro Eu.
A morte – se assim quisermos chamar essa inefetividade – é a coisa mais terrível; e suster o que está morto requer a força máxima. A beleza sem-força detesta o entendimento porque lhe cobra o que não tem condições de cumprir. Porém, não é a vida que se atemoriza ante a morte e se conserva intacta da devastação, mas é a vida que suporta a morte e nela se conserva, que é a vida do espírito. O espírito só alcança sua verdade na medida em que se encontra a si mesmo no dilaceramento absoluto. Ele não é essa potência como o positivo que se afasta do negativo – como ao dizer de alguma coisa que é nula ou falsa, liquidamos com ela e passamos a outro assunto. Ao contrário, o espírito só é essa potência enquanto encara diretamente o negativo e se demora junto dele. Esse demorar-se é o poder mágico que converte o negativo em ser. | Trata-se do mesmo poder que acima se denominou sujeito, e que ao dar, em seu elemento, ser-aí à determinidade, suprassume a imediatez abstrata, quer dizer, a imediatez que é apenas essente em geral. Portanto, o sujeito é a substância verdadeira, o ser ou a imediatez – que não tem fora de si a mediação, mas é a mediação mesma.”
(Prefácio da Fenomenologia do Espírito, Tradução Paulo Meneses, Petrópolis, RJ: Vozes: Bragança Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2012, p. 43-44)

sábado, 23 de junho de 2018

Havia terra neles, e
Eles escavavam.
Escavavam, escavavam, e assim
o dia todo, a noite toda. E não louvavam a Deus
que, como ouviram, queria isso tudo
que, como ouviram, sabia isso tudo

Eles escavavam e não ouviam mais
Não se tornaram sábios, não inventaram canção alguma
Não imaginaram linguagem alguma
Eles escavavam
Veio um silêncio, veio também uma tempestade
Vieram todos os mares

Eu escavo, tu escavas e escava também o verme
E quem aí canta diz: eles escavam

Oh alguém, oh nenhum, oh ninguém, oh você
Para que lugar foi, senão a lugar algum?
Oh você escava e eu escavo, e eu me escavo rumo a ti
E no dedo desperta-nos o anel.
Paul Celan

Poderíamos começar por nos perguntar sobre que situação epocal é esta na qual tentar aproximar-se de alguém através do amor deve ser descrito como um ato de escavar. Pois, se um dia o amor foi comparado a uma terra firme, aproximá-lo do ato de escavar indica que agora estamos diante de terra em excesso, terra demais que soterrou os amantes na distância do que se petrifica, do que volta à inércia, daquilo com o qual cobrimos os mortos. Mas a escavação, da qual Celan fala, parece não se contentar em desterrar o que estava soterrado, como se fosse ação ligada à justificação de sua utilidade. Ela quer se apresentar como o gesto elementar de uma repetição bruta, dessas que não nos tornam mais sábios, que não nos levam a inventar canção alguma, a imaginar linguagem alguma. Repetição que parece estar no lugar de uma prece, que se repete secamente. "Eles escavam", diz o poema em todos seus momentos: pois há de se repetir a ação em ritmo de prece, sentindo o peso impredicado do que não tem tempo, do que se faz o dia todo e a noite toda porque é indiferente à existência do dia ou da noite, é indiferente ao passar do dia e da noite. Tempo que destrói o dia e a noite em uma indiferença soberana. Tempo que se repete, que não se rememora.
Repetir-se sem louvar a Deus pois os amantes que escavam não esperam desterrar unidade alguma, nem esperam algo além de sua ciência e escuta. Não se louva a Deus porque Deus não vela mais pelos amantes na garantia destinal da reconciliação, ele sequer os observa. No desamparo de não ter quem os vele, os amantes escavam até encontrar esse estado no qual se ouve tanto o silêncio quanto se vê a tempestade, Still e Sturm: aliteração que nos lembra como, do fundo, vem o momento no qual os afetos opostos desabam em um ponto de indistinção. Veio a indistinção entre o silêncio e a tempestade e, lá onde o silêncio berra e a tempestade cala, algo de impossível irrompe: a abertura da infinitude de todos os mares diante dos amantes.
Todos os mares - há de se ter muito espaço para a grandeza intensiva de todos os mares. Mas alguém poderia ter a péssima ideia de se perguntar: o que se sente diante de todos os mares? O sublime dinâmico que mostra a excelência de nossa destinação, seria possível dizer. Mas então o que faz lá o verme? Pois, diante de todos os mares, há eu, há tu e há o verme, esse intruso nem um pouco sublime que, no entanto, lembra que todos os mares são também terra, matéria que se escava o dia todo, a noite toda. Momento em que o material do poema se atrofia até se transformar em uma impessoal e inexpressiva regra de conjugação verbal (ich grabe, du gräbst und es gräbt...) que irrompe no momento mais sublime das imagens. Ich, du und es: a primeira, a segunda e a terceira pessoa, mas uma terceira pessoa impessoal, tão democrática quanto o verme que corrói todas as carnes, a minha e a sua, em uma indistinção, ao mesmo tempo, originária e final. Terceira pessoa na qual se quebram as fusões dos mares e que talvez lembre como todos os mares, ao final, estão lá para nos despossuir. Nos fazer passar de alguém a ninguém nos faz passar de quem se conta (oh einer + einer + einer) a quem não se conta mais (niemand). De alguém que ainda é uma pessoa, a respeito da qual se pode dizer algo, a ninguém: este, despossuído de predicados; este, que pergunta para onde você foi se não há lugar para ir.
E nesse momento em que não há mais o que escavar, pois não há mais lugar para ir, não há mais direção, então até a mais elementar regra gramatical de conjugação verbal produz o que só pode ser produzido na consciência absoluta da disjunção, no retraimento dos deuses e dos mares e de todos os que um dia prometeram velar pelos amantes. O material gasto e elementar produz aneis que despertam dos dedos mostrando como a disjunção dessacralizada do amor consegue nos fazer passar da impotência à imagem do impossível. Quando a disjunção tudo implode, ainda que o desejo persista em sua força bruta de prece, há um anel que brota nos dedos dos amantes.
Mas, para que os aneis brotem, é necessário que a língua toque o impossível, que ela conjugue de uma forma que a gramática não permite conjugar: ich grab mich, eu me escavo. Nunca a língua viu ação semelhante. Eu me escavo porque há terra em mim, a mesma que soterra você. E a primeira escavação é a da língua que precisa deixar de comunicar para passar a escavar a si mesma, desmontar suas pŕoprias regras como quem desconstrói casas na superfície para encontrar vestígios de outros tempos no subsolo. É só através de uma torção da língua que os amantes produzem aquilo de que são capazes.

SAFATLE, Vladimir. O circuito dos afetos: corpos políticos, desamparo e o fim do indivíduo. 2ªEd. Belo Horizonte: Autêntica, 2016.

sexta-feira, 8 de junho de 2018

O GOSTO DO NADA, charles baudelaire & guilherme de almeida

Morno espírito, antigamente afeito à luta,
A Esperança, que te esporeava outrora o ardor,
Não te cavalga mais! Deita-te sem pudor,
Cavalo que tropeça em tudo e em vão reluta.

Dorme, ó meu coração; desiste, ó massa bruta!

Espírito vencido, em ti, velho impostor,
Já não tem gosto o amor, nem o tem a disputa;
Não mais a voz do cobre ou da flauta se escuta!
Deixa esta alma sombria, ó Prazer tentador!

Perdeu a Primavera o seu cheiro de flor.

E o tempo me devora em marcha resoluta,
Como a ampla neve um corpo rijo de torpor;
Contemplo do alto o globo túmido e incolor,
E nele nem procuro o abrigo de uma gruta!

Vais levar-me, avalancha, em tua queda abrupta?

[Le Goût du néant

Morne esprit, autrefois amoureux de la lutte,
L'Espoir, dont l'éperon attisait ton ardeur,
Ne veut plus t'enfourcher! Couche-toi sans pudeur,
Vieux cheval dont le pied à chaque obstacle butte.

Résigne-toi, mon coeur; dors ton sommeil de brute.

Esprit vaincu, fourbu! Pour toi, vieux maraudeur,
L'amour n'a plus de goût, non plus que la dispute;
Adieu donc, chants du cuivre et soupirs de la flûte!
Plaisirs, ne tentez plus un coeur sombre et boudeur!

Le Printemps adorable a perdu son odeur!

Et le Temps m'engloutit minute par minute,
Comme la neige immense un corps pris de roideur;
— Je contemple d'en haut le globe en sa rondeur
Et je n'y cherche plus l'abri d'une cahute.
Avalanche, veux-tu m'emporter dans ta chute?]

BAUDELAIRE, Charles; ALMEIDA, Guilherme de. Flores das 'Flores do mal' de Charles Baudelaire/ carvões de Quirino. Rio de Janeiro: J. Olympio, [1944].

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

MEDIDA DA SIGNIFICAÇÃO, cecília meireles


I

Procurei-me nesta água da minha memória
que povoa todas as distâncias da vida
e onde, como nos campos, se podia semear, talvez,
tanta imagem capaz de ficar florindo...
Procurei minha forma entre os aspectos das ondas,
para sentir, na noite, o aroma da minha duração.

Compreendo que, da fronte aos pés, sou de ausência absoluta:
desapareci como aquele — no entanto, árduo — ritmo
que, sobre fingidos caminhos,
sustentou a minha passagem desejosa.

Acabei-me como a luz fugitiva
que queimou sua própria atitude
segundo a tendência do meu pensamento transformável.

Desde agora, saberei que sou sem rastros.
Esta água da minha memória reúne os sulcos feridos:
as sombras efêmeras afogam-se na conjunção das ondas.

E aquilo que restaria eternamente
é tão da cor destas águas,
é tão do tamanho do tempo,
é tão edificado de silêncios
que, refletido aqui,
permanece inefável.

II

Voz obstinada, por que insistes chamando
por um nome que não corresponde mais a mim?

Não é do meu propósito que fiques ao longe sozinha.
Nem tu sabes que espécie de saudade abrolha na noite
e como o silêncio tenta mover-se inutilmente,
quando diriges teus ímãs sonoros,
sondando direções!

Não é do meu propósito, ó voz obstinada,
mas da minha condição.
As aparências dispersaram-se de mim,
como pássaros:
que sol se pode fixar nesta existência,
para te definir a minha aproximação?

Minhas dimensões se aboliram nos limites visíveis:
como podes saber onde me circunscrevo,
e de que modo me pode o teu desejo atingir?

Eu mesma deixei de entender a minha substância;
tenho apenas o sentimento dos mistérios que em mim se equilibram.

Como podes chamar por mim como às coisas concretas,
e assegurar-me que sou tua Necessidade e teu Bem?

III

Para experiência do teu contentamento,
crio formas que vistam meus pensamentos irreveláveis,
e modelo fisionomias com que te possa aparecer.

Pisarei minha solidão com renúncia e alegria
e, por entre caminhos assombrados,
resoluta virei até onde te encontres,
cortando as sombras que crescem como florestas.

Eu mesma me sentirei alucinada e esquisita,
com esse alento das nebulosas sinistras
que se desenvolvem nas febres.

Não saberei precisamente quando me verás,
nem se compreenderei a linguagem que falas,
e os nomes que têm as tuas realidades
e o tempo dos outros acontecimentos...

Mas o que, desde agora, sinto e sei com firmeza
é que tua voz continuará chamando por mim, obstinada,
embora eu não possa estar mais perto nem mais viva,
e se tenha acabado o caminho que existe entre nós,
e eu não possa prosseguir mais...


IV

A água da minha memória devora todos os reflexos.

Desfizeram-se, por isso, todas as minhas presenças
e sempre se continuarão a desfazer.

É inútil o meu esforço de conservar-me;
todos os dias sou meu completo desmoronamento:
e assisto à decadência de tudo,
nestes espelhos sem reprodução.

Voz obstinada que estás ao longe chamando-me,
conduze-te a mim, para compreenderes minha ausência.
Traze de longe os teus atributos de amargura e de sonho,
para veres o que deles resta
depois que chegarem a estes ermos domínios
onde figuras e horas se decompõem.

Não precisaremos falar mais nem sentir:
seremos só de afinidades: morrerão as alegorias.

E saberás distinguir as coisas que perecem desoladas,
olhando para esta água interminável e muda,
que não floriu, que não palpitou, que não produziu,
de tanto ser puramente imortal...

MEIRELES, Cecília. Obra poética. 3ª. Ed. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1972.

INSÔNIA, graciliano ramos


Sim ou não? Esta pergunta surgiu-me de chofre no sono profundo e acordou-me. A inércia findou num instante, o corpo morto levantou-se rápido, como se fosse impelido por um maquinismo.
Sim ou não? Para bem dizer não era pergunta, voz interior ou fantasmagoria de sonho: era uma espécie de mão poderosa que me agarrava os cabelos e me levantava do colchão, brutalmente, me sentava na cama, arrepiado e aturdido. Nunca ninguém despertou de semelhante maneira. Uma garra segurando-me os cabelos, puxando-me para cima, forçando-me a erguer o espinhaço, e a voz soprava aos meus ouvidos, gritada aos meus ouvidos: "Sim ou não?"
Nada sei: estou atordoado e preciso continuar a dormir, não pensar, não desejar, matéria fria e impotente. Bicho inferior, planta ou pedra, num colchão. De repente a modorra cessou, a mola me suspendeu e a interrogação absurda me entrou nos ouvidos: "Sim ou não?" Encostar de novo a cabeça ao travesseiro e continuar a dormir, dormir sempre. Mas o desgraçado corpo está erguido e não tolera a posição horizontal. Poderei dormir sentado?
Um, dois, um, dois. Certamente são as pancadas de um pêndulo inexistente. Um, dois, um, dois. Ouvindo isto, acabarei dormindo sentado. Eescorregarei no colchão, mergulharei a cabeça no travesseiro, como um bruto, levantar-me-ei tranquilo com os rumores da rua, os pregões dos vendedores, que nunca escuto.
Um, doi, um, dois. Não consigo estirar-me na cama, embrutecer novamente: impossível a adaptação aos lençóis e às coisas moles que enchem o colchão e os travesseiros. Certamente aquilo foi alucinação, esforço-me por acreditar que uma alucinação me agarrou os cabelos e me conservou deste modo, inteiriçado, os olhos muito abertos, cheios de pavores. Que pavores? Por que tremo, tento sustentar-me em coisas passadas, frágeis, teias de aranha?
Sim ou não? Estarei completamente doido ou oscilarei ainda entre a razão e a loucura? Estou bem, é claro. Tudo em redor se conserva em ordem: a cama larga não aumentou nem diminuiu, as paredes sumiram-se depois que apertei o botão do comutador, a faixa de luz que varre o quarto é comum, igual à que ontem me feriu os olhos e me despertou subitamente.
Por que fui imaginar que este jato de luz é diferente dos outros e funesto? Caí na cama e rolei fora daqui nem sei que tempo, longe, muito longe, gastando-me no espaço. Partículas minhas boiaram à toa entre os mundos. De repente uma janela se abriu na casa vizinha, um jorro de luz atravessou-me a vidraça, entrou-me em casa e interrompeu a ausência prolongada.
Sim ou não? Quem me está fazendo na sombra esta horrível pergunta? Com a golfada de luz que penetrou a vidraça, alguém chegou, pegou-me os cabelos, levantou-me do colchão, gritou-me as palavras sem sentido e escondeu-se num canto. Arregalo os olhos, tento convencer-me de que a luz é ordinária, emanação de um foco ordinário aqui da casa próxima. Se alguém tivesse torcido uma lâmpada para a esquerda ou tocado um botão na parede, eu teria continuado a rolar na imensidão, fora da Terra. Mas isto não se deu - e a réstia que me divide o quarto muda-se em pessoa.
Quem está aqui? Será um ladrão? Aventura inútil, trabalho perdido. Não possuo nada que se possa roubar. Se um ladrão passou pelos vidros, procurá-lo-ei tateando, encontrá-lo-ei num canto de parede e direi baixinho, para não amedrontá-lo: "Não te posso dar nada, meu filho. Volta para o lugar donde vieste, atravessa novamente os vidros. E deixa-me aí qualquer coisa." Nã, nenhum ladrão se engana comigo. Contudo alguém me entrou em casa, está perto de mim, repetindo as palavras que me endoidecem: "Sim ou não?"
Sim, não, sim, não. Um relógio tenta chamar-me à realidade. Que tempo dormi? Esperarei até que o relógio bata de novo e me diga que vivi mais meia hora, dentro deste horrível jato de luz.
Um, dois, um, dois. Tudo isto é ilusão. Ouvi uma pancada dentro da noite, mas não sei se o relógio está longe ou perto: o tique-taque dele é muito próximo e muito distante.
Sim ou não? Deverei levantar-me, andar, convencer-me de que saí daquele sono de morte e posso mexer-me como um vivente qualquer, ir, vir, chegar à janela e receber o ar da madrugada? Impossível mover-me. Para alcançar a janela preciso atravessar esta claridade que me fende o quarto como uma cunha, rasga a escuridão, fria dura, crua. ]se a escuridão fosse completa, eu conseguiria encostar-me de novo, cerrar os olhos, pensar num encontro que tive durante o dia, recordar uma frase, um rosto, a mão que me apertou os dedos, mentiras sussurradas inutilmente.
O relógio lá embaixo torna a bater. Conto as pancadas e engano-me. Duas ou três? Daqui a uma hora certificar-me-ei. Uma hora imóvel, os cotovelos pregados nos joelhos, o queixos nas mãos, os dedos sentindo a dureza dos ossos da cara. O que há de sensível nesta carcaça trêmula concentrou-se nos dedos, e os dedos apalpam ossos de caveira.
Um, dois, um, dois. Evidentemente me equivoco, não ouço o tiquetaquear do pêndulo: o relógio afastou-se, gastará uma eternidade para me dizer se foram duas ou três as pancadas que me penetraram a carne e rebentaram os ossos.
Que está aqui, a martelar no escuro, sim ou não, sim ou não, roendo-me, roendo-me? Será um rato faminto que roeu a porta, se chegou a mim e continuou a roer interminavelmente? Não. Se fosse um rato, eu me levantaria, iria enxotá-lo. Usaria as pernas, que se tornaram de chumbo, atravessaria a zona luminosa, acenderia um cigarro.
Houve agora uma pausa na nesta agonia, todos os rumores se dissipara,. a vidraça escureceu, o soalho fugiu-me dos pés - e senti-me cair devagar na treva absoluta. Subitamente um foguete rasga a treva e um arrepio sacode-me. Na queda imensa deixei a cama, alcancei a mesa, vim fumar.
Sim ou não? A pergunta corta a noite longa. Parece que a cidade se encheu de igrejas, e em todas as igrejas há sinos tocando, lúgubres: "Sim ou não? Sim ou não?" Por que é que esses sinos tocam fora da hora, adiantadamente?
A pessoa invisível que me persegue não se contenta com a interrogação multiplicada: aperta-me o pescoço. Tenho um nó na garganta, unhas me ferem, uma horrível gravata me estrangula.
Por que estão rindo? Hem? Por que estão rindo aqui no meu quarto? An, an! An, an! Não há motivo. An, an! An, an! Um sujeito acordou no meio da noite, não reatou o sono, veio sentar-se à mesa e fumar. Apenas. Inteiramente calmo, os cotovelos pregados na madeira, o queixo apoiado nas munhecas, o cigarro preso nos dentes, os dedos quase parados percorrendo as escrescências de uma caveira. Toda a carne fugiu, toda a carne apodreceu e foi comida pelos vermes. Um feixe de ossos, escorado à mesa, fuma. Um esqueleto veio da cama até aqui, sacolejando-se, rangendo.
Sim ou não? Lá está o diabo do relógio a tiquetaquear, a matracar: "Sim ou não?" Desejaria que me deixassem em paz, não viessem fazer perguntas a esta hora. Se pudesse baixar a cabeça, descansaria talvez, dormiria junto à pilha de livros, despertaria quando o sol entrasse pela janela.
Um, dois, um, dois. Que me dizia ontem à tarde aquele homem risonho, perto de uma vitrina? Tão amável! Penso que discordei dele e achei tudo ruim na vida. O homem amável sorriu para não me contrariar. Provavelmente está dormindo.
Terá parado, o maldito relógio? Terá batido enquanto me ausentei, consumi séculos da cama para aqui?
Um silêncio grande envolve o mundo. Contudo a voz que me aflige continua a mergulhar-me nos ouvidos, a apertar-me o pescoço. Estremeço. Como é possível semelhante coisa? Como é possível uma voz apertar o pescoço de alguém? Rio, tento libertar-me da loucura que me puxa para uma nova queda, explico a mim mesmo que o que me aperta o pescoço não é uma voz: é uma gravata. A voz diz apenas: "Sim ou não?" Hem? Que vou responder?
Há uma terrível injustiça. Por que dormem os outros homens e eu fico arriado sobre uma tábua encolhido, as falanges descarnadas contornando órbitas vazias? Hem? Os vermes insaciáveis dizem baixinho: "Sim ou não?"
A luz que vinha da casa próxima desapareceu, a vidraça apagou-se, e este quarto é uma sepultura. Uma sepultura onde pedaços do mundo se ampliam desesperadamente.
Sim ou não? Como entraram aqui estas palavras? Por onde entraram estas palavras?
Enforcaram-me, decompus-me, os meus ossos caíram sobre a mesa, junto ao cinzeiro, onde pontas de cigarro se acumulam. Estou só e morto. Quem me chama lá de fora, quem me quer afastar do túmulo, obrigar-me a andar na rua, tomar o bonde, entrar no café?
Sim ou não? Sei lá! Antes de morrer, agitei-me como doido, corri como doido, enorme ansiedade me consumiu. Agora estou imóvel e tranquilo. Como posso fumar se estou imóvel e tranquilo? A brasa do cigarro desloca-se vagarosamente, chega-me à boca, aviva-se, foge, empalidece. É uma brasa animada, vai e vem, solta no ar, como um fogo-fátuo. Os meus dedos estão longe dela, frios e sem carne, metidos em órbitas vazias. Toda a vontade sumiu-se, derreteu-se - e a brasa é um olho zombeteiro. Vai e vem, lenta, vai e vem, parece que me está perguntando qualquer coisa.
Evidentemente sou um sujeito feliz. Hem? Feliz e imóvel. Se alguém comprimisse ali o botão do comutador, eu veria no espelho uma cara sossegada, a mesma que vejo todos os dias, inexpressiva, indiferente, um sorriso idiota pregado nos beiços.
Amanhã comportar-me-ei direito, amarrarei uma gravata ao pescoço, percorrerei as ruas como um bicho doméstico, um cidadão comum, arrastado para aqui, para acolá, dizendo frases convenientes. Feliz, completamente feliz.
Novos foguetes rompem a escuridão e acendem novos cigarros. Feliz e imóvel. Se a noite findasse, erguer-me-ia, caminharia como os outros, entraria no banheiro, livrar-me-ia das impurezas que me estão coladas nos ossos. Mas a noite não finda, todos os relógios descansaram - e a Terra está imóvel como eu.
O silêncio é um burburinho confuso, um sopro monótono. Parece que um grande vento se derrama gemendo sobre as árvores dos quintais vizinhos. Um zumbido longo de abelhas. E as abelhas partem os vidros da janela escura, o vento vem lamber-me os ossos, enrolar-se no meu pescoço como uma gravata.
Frio. A tocha quase apagada do cigarro treme; os dedos, que percorrem os buracos de órbitas vazias, tremem. E a tremura reproduz o tique-taque de um relógio.
Desejaria conversar, voltar a ser homem, sustentar uma opinião qualquer, defender-me de inimigos invisíveis. As idéias amorteceram como a brasa do cigarro. O frio sacode-me os ossos. E os ossos chocalham a pergunta invariável: "Sim ou não? Sim ou não? Sim ou não?"

RAMOS, Graciliano. Insônia. 3ª Ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1953.