terça-feira, 18 de novembro de 2025

O COLECIONADOR DE SEGREDOS

essa memória-cela me esfacela
essa mentira-fronte me confronta
nesse sorriso aflito há conflito:
isso de querer tudo, sobretudo

quando fecho os olhos dos ferrolhos -
sinto ouvir o vento dos eventos
arrombando a porta aonde aportam
sem qualquer vestígio de litígio

alguém quis assim? um não, um sim?
alguém percorreu o que ocorreu,
mesmo que perdesse o que se desse?

se ele aqui sobrou já soçobrou
apenas essa marca me demarca
como algum retrato em abstrato.

À MANEIRA DE AUGUSTO FREDERICO SCHMIDT, Manuel Bandeira

 I
Daqui a trezentos anos
Não existirei mais.

Outros amarão e serão amados,
Outros terão livrarias católicas,
Outros escreverão no suplemento de domingo dos jornais:
Eu não existirei mais.

Seja, não importa, Senhor!
Sou um pobre gordo.
Mas sei que eles também não serão felizes.

Eu sim, o serei então.
Quando debaixo da terra, magro, magro, só ossos,
Não existir mais.

II
Há muito o meu coração está seco,
Há muito a tristeza do abandono,
A desolação das coisas práticas
Entrou em mim, me diminuindo.

Porém de repente será talvez a contemplação
De um céu noturno como mais belo não vi,
Com estrelas de um brilho incrível,
De uma pureza incalculável, incrível.

A poesia voltará de novo ao meu coração
Como a chuva caindo na terra queimada.
Como o sol clareando a tristeza das cidades,
Das ruas, dos quintais, dos tristes e dos doentes.

A poesia voltará de novo, única solução para mim,
Única solução para o peso dos meus desenganos,
Depois de todas as soluções terem falhado:
O amor, os seguros, a água, a borracha.

A poesia voltará de novo, consoladora e boa,
Com uma frescura de mãos santas de virgem,
Com uma bondade de heroísmos terríveis,
Com uma violência de convicções inabaláveis.

Verei fugir todas as minhas amargas queixas de repente.
Tudo me parecerá de novo exato, sólido, reto,
A poesia restabelecerá em mim o equilíbrio perdido.
A poesia cairá em mim como um raio.

METAL ROSICLER 6, cecília meireles

Parecia bela:
era apenas triste.
Quem no mundo existe
que se lembre dela?

De lábio tão suave,
de modos de criança
e desesperança
que não se descreve.

Tudo nesta vida
lhe era tão deserto
que só viu de perto
morte e despedida.

Hoje, acaso mira
antigos retratos...
(Oh, do sonho aos atos...)
Recorda e suspira.

sábado, 8 de maio de 2021

Trecho de Na colônia penal (1914), Franz Kafka


– Nossa sentença não soa severa. O mandamento que o condenado infringiu é escrito no seu corpo com o rastelo. No corpo deste condenado, por exemplo – o oficial apontou para o homem –, será gravado: Honra o teu superior!

O explorador levantou fugazmente os olhos na direção do homem; este manteve a cabeça baixa quando o oficial apontou para ele, parecendo concentrar toda a energia da audição para ficar sabendo de alguma coisa. Mas o movimento dos seus lábios protuberantes e comprimidos mostrava claramente que não conseguia entender nada. O explorador queria perguntar diversas coisas, mas à vista do homem indagou apenas:

– Ele conhece a sentença?

– Não – disse o oficial, e logo quis continuar com as suas explicações.

Mas o explorador o interrompeu:

– Ele não conhece a própria sentença?

– Não – repetiu o oficial e estacou um instante, como se exigisse do explorador uma fundamentação mais detalhada da sua pergunta; depois disse:

– Seria inútil anunciá-la. Ele vai experimentá-la na própria carne.

O explorador já estava querendo ficar quieto quando sentiu que o condenado lhe dirigia o olhar; parecia indagar se ele podia aprovar o procedimento descrito. Por isso o explorador, que já tinha se recostado, inclinou-se de novo para a frente e ainda perguntou:

– Mas ele certamente sabe que foi condenado, não?

– Também não – disse o oficial e sorriu para o explorador, como se ainda esperasse dele algumas manifestações insólitas.

– Não – disse o explorador passando a mão pela testa. – Então até agora o homem ainda não sabe como foi acolhida sua defesa?

– Ele não teve oportunidade de se defender – disse o oficial, olhando de lado como se falasse consigo mesmo e não quisesse envergonhar o explorador com o relato de coisas que lhe eram tão óbvias.

– Mas ele deve ter tido oportunidade de se defender – disse o explorador erguendo-se da cadeira.

O oficial se deu conta de que corria perigo de ser interrompido por longo tempo na explicação do aparelho; por isso caminhou até o explorador, tomou-o pelo braço, indicou com a mão o condenado, que agora se punha em posição de sentido, já que a atenção se dirigia a ele com tanta evidência – o soldado também deu um puxão na corrente –, e disse:

– As coisas se passam da seguinte maneira. Fui nomeado juiz aqui na colônia penal. Apesar da minha juventude. Pois em todas as questões penais estive lado a lado com o comandante e sou também o que melhor conhece o aparelho. O princípio segundo o qual tomo decisões é: a culpa é sempre indubitável. Outros tribunais podem não seguir esse princípio, pois são compostos por muitas cabeças e além disso se subordinam a tribunais mais altos. Aqui não acontece isso, ou pelo menos não acontecia com o antigo comandante. O novo entretanto já mostrou vontade de se intrometer no meu tribunal, mas até agora consegui rechaçá-lo – e vou continuar conseguindo. O senhor queria que eu lhe esclarecesse este caso; é tão simples como todos os outros. Hoje de manhã um capitão apresentou a denúncia de que este homem, que foi designado seu ordenança e dorme diante da sua porta, dormiu durante o serviço. Na realidade ele tem o dever de se levantar a cada hora que soa e bater continência diante da porta do capitão. Dever sem dúvida nada difícil, mas necessário, pois ele precisa ficar desperto tanto para vigiar como para servir. Na noite de ontem o capitão quis verificar se o ordenança cumpria o seu dever. Abriu a porta às duas horas e o encontrou dormindo todo encolhido. Pegou o chicote de montaria e vergastou-o no rosto. Ao invés de se levantar e pedir perdão, o homem agarrou o superior pelas pernas, sacudiu-o e disse: “Atire fora o chicote ou eu o engulo vivo!”. São estes os fatos. Faz uma hora o capitão se dirigiu a mim, tomei nota das suas declarações e em seguida lavrei a sentença. Depois determinei que pusessem o homem na corrente. Tudo isso foi muito simples. Se eu tivesse primeiro intimado e depois interrogado o homem, só teria surgido confusão. Ele teria mentido, e se eu o tivesse desmentido, teria substituído essas mentiras por outras e assim por diante. Mas agora eu o agarrei e não o largo mais. Está tudo esclarecido? Mas o tempo está passando, a execução já deveria começar e ainda não acabei de explicar o aparelho.

[…]


Tradução: Modesto Carone

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Meu nome


I

Tudo seguia tranquilo
muito tranquilo
o murmúrio lá fora dizia
que tudo seguia bastante tranquilo

então fiquei calmo e sereno
qual superfície de um rio bem tranquilo
ou feito a pessoa sentada sem pressa
à margem do curso de um rio bem tranquilo
ouvindo somente o murmúrio dizendo
que tudo seguia bastante tranquilo
e aquilo era fácil de se constatar
no espelho sereno das águas do rio

seria impreciso ou sem força dizer:
não sei quanto tempo essa calma durou?

É que de repente – que coisa espreitava
do espelho sereno das águas do rio? –
uma voz lá de dentro chamou por meu nome:
um nome que eu nunca cheguei a ouvir
um nome que eu não sei nem pronunciar
um nome que eu não imaginava existir
era o meu nome que vinha de dentro
do espelho sereno das águas do rio

Não mais o murmúrio,
apenas um grito
contínuo
vibrando
vibrando –

as coisas tremendo
o grito ecoando
feito uma faca:

era o meu nome

II

Ninguém escolhe o nome que tem, mas é nele que pensam quando lembram de alguém.

III

Tomara que os nomes sempre nos lembrem do que é feita sua matéria: violência.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Eu estava subindo uma montanha até que encontrei uma pedra razoavelmente grande, mais ou menos do meu tamanho. Mas ela era tão macia que esqueci do caminho, fiquei lá abraçado com ela. Ela não falava muito e quando falava era sobre comunhão etc, então mostrei pra ela constelações que tinha decorado e riscamos na areia alguns conceitos de geometria euclidiana. Estávamos no meio da mata, dissolutos, sob a orquestra dos seres da noite, quando adormecemos.
Sonhei que estava trancado no banheiro e a privada era um caldeirão de onde saía uma fumaça inodora; ao meu lado, um cheff sem parte da cabeça, que aparentemente havia sido mordida por algum ser de boca enorme, me ensinava a receita da luta propriamente dita. Ele me dizia, com sotaque espanhol: cultivar o deserto como um pomar às avessas.
Despertei imóvel e macio. Tentei olhar pra noite, mas era uma noite sem céu. Aos poucos fui constatando que eu estava dentro da pedra. Não tardei a perceber que era só pensar em nada que eu conseguia ver lá fora. Logo amanheceu. Ao longe senti o chão ser pisado por um ser razoavelmente grande, que mal se aproximou já começou a me abraçar.

Mariana - MG, julho de 2016

David Hume sobre a paixão e a razão

"Nada é mais comum na filosofia, e mesmo na vida corrente, que falar no combate entre a paixão e a razão, dar preferência à razão e afirmar que os homens só são virtuosos quando se conformam a seus preceitos. Afirma-se que toda criatura racional é obrigada a regular suas ações pela razão; e se qualquer outro motivo ou princípio disputa a direção de sua conduta, a pessoa deve se opor a ele até subjugá-lo por completo ou, ao menos, até torná-lo conforme àquele princípio superior. A maior parte da filosofia moral, seja antiga ou moderna, parece estar fundada nesse modo de pensar. E não há campo mais vasto, tanto para argumentos metafísicos como para declamações populares, que essa suposta primazia da razão sobre a paixão. A eternidade, a invariabilidade e a origem divina da razão têm sido retratadas nas cores mais vantajosas; a cegueira, a inconstância e o caráter enganoso da paixão foram salientados com o mesmo vigor. Para mostrar a falácia de toda essa filosofia, procurarei provar, primeiramente, que a razão, sozinha, não pode nunca ser motivo para uma ação da vontade; e, em segundo lugar, que nunca poderia se opor à paixão na direção da vontade.

O entendimento se exerce de dois modos diferentes, conforme julgue por demonstração ou por probabilidade; isto é, conforme considere as relações abstratas entre nossas idéias ou as relações entre os objetos, que só conhecemos pela experiência. Como seu domínio próprio é o mundo das ideias, e como a vontade sempre nos põe no mundo das realidades, a demonstração e a volição parecem estar, por esse motivo, inteiramente separadas uma da outra. É verdade que a matemática é útil nas operações mecânicas, e a aritmética, em quase todas as artes e profissões. Mas não é por si mesmas que elas têm influência. A mecânica é a arte de regular os movimentos dos corpos para alguma finalidade ou propósito; e a única razão de empregarmos a aritmética para determinar as proporções dos números é porque, com ela, podemos descobrir as proporções da influência e operação destes. O comerciante deseja conhecer a soma total de suas contas com alguém. E por quê? Porque assim poderá saber que [a] soma, ao pagar sua dívida e ir ao mercado, terá os mesmos efeitos que todas as parcelas individuais tomadas em conjunto. O raciocínio abstrato ou demonstrativo, portanto, só influencia nossas ações enquanto dirige nosso juízo sobre causas e efeitos. Isso nos leva à segunda operação do entendimento.

É evidente que, quando temos a perspectiva de vir a sentir dor ou prazer por causa de um objeto, sentimos, em consequência disso, uma emoção de aversão ou de propensão, e somos levados a evitar ou a abraçar aquilo que nos proporcionará esse desprazer ou essa satisfação. Também é evidente que tal emoção não se limita a isso; ao contrário, faz que olhemos para todos os lados, abrangendo qualquer objeto que esteja conectado com o original pela relação de causa e efeito. É aqui, portanto, que o raciocínio tem lugar, ou seja, para descobrir essa relação; e conforme nossos raciocínios variam, nossas ações sofrem uma variação subsequente. Mas é claro que, neste caso, o impulso não decorre da razão, sendo apenas dirigido por ela. É a perspectiva de dor ou prazer que gera a aversão ou propensão ao objeto; e essas emoções se estendem àquilo que a razão e a experiência nos apontam como as causas e os efeitos desse objeto. Nunca teríamos o menor interesse em saber que tais objetos são causas e tais outros são efeitos, se tanto as causas como os efeitos nos fossem indiferentes. Quando os próprios objetos não nos afetam, sua conexão jamais pode lhes dar uma influência; e é claro que, como a razão não é senão a descoberta dessa conexão, não pode ser por meio dela que os objetos são capazes de nos afetar.

Uma vez que a razão sozinha não pode produzir nenhuma ação nem gerar uma volição, infiro que essa mesma faculdade é igualmente incapaz de impedir uma volição ou de disputar nossa preferência com qualquer paixão ou emoção. Essa é uma consequência necessária. A única possibilidade de a razão ter esse efeito de impedir a volição seria conferindo um impulso em direção contrária à de nossa paixão; e esse impulso, se operasse isoladamente, teria sido capaz de produzir a volição. Nada pode se opor ao impulso da paixão, ou retardá-lo, senão um impulso contrário; e para que este impulso contrário pudesse alguma vez resultar da razão, esta última faculdade teria de exercer uma influência original sobre a vontade e ser capaz de causar, bem como de impedir, qualquer ato volitivo. Mas se a razão não possui uma influência original, é impossível que possa fazer frente a um princípio com essa eficácia, ou que possa manter a mente em suspenso por um instante sequer. Vemos, portanto, que o princípio que se opõe a nossa paixão não pode ser o mesmo que a razão. Quando nos referimos ao combate entre paixão e razão, não estamos falando de uma maneira filosófica e rigorosa. A razão é, e deve ser, apenas a escrava das paixões, e não pode aspirar a outra função além de servir e obedecer a elas."

Tratado da natureza humana, trad. Débora Danowski, Unesp, p. 448-450 (Livro 2, parte 3, seção 3)